SOFRO PORQUE QUERO
- Ap. Ernani Lara

- 13 de ago.
- 4 min de leitura

Sofro porque quero
Há dores que batem à nossa porta sem serem convidadas. Há enfermidades que chegam sem aviso, perdas que não escolhemos, injustiças que não provocamos e despedidas para as quais nunca estivemos preparados, diante disso você pode perguntar: "sofro porque quero?.
Jó sofreu sem compreender a razão. José conheceu a cisterna e a prisão por causa da maldade de outros. Paulo conheceu açoites, perseguições e naufrágios enquanto cumpria sua missão. Jesus, sendo inocente, conheceu a cruz.
Portanto, seria cruel olhar para toda pessoa que sofre e dizer: “Você está sofrendo porque quer.”
Mas existe outro tipo de sofrimento.
É aquele que nasce quando conhecemos o caminho, mas escolhemos o atalho. Quando recebemos o conselho, mas preferimos a própria vontade. Quando Deus acende a luz vermelha no painel da vida e, em vez de procurar o problema, colocamos uma fita sobre a luz para não vê-la.
É sobre esse sofrimento que precisamos conversar.
Jeremias fez ao povo uma pergunta desconfortável:
“Você não provocou tudo isso ao abandonar o Senhor, o seu Deus?”Jeremias 2:17
A pergunta de Jeremias atravessa os séculos porque toca numa fraqueza profundamente humana. Temos enorme facilidade para encontrar culpados.
Quando alguma coisa dá errado, procuramos imediatamente alguém a quem responsabilizar. A família, o casamento, a igreja, o pastor, o governo, as circunstâncias e, algumas vezes, até o diabo.
Jeremias, porém, coloca um espelho diante de nós e pergunta:
Qual foi a minha participação na construção da realidade que estou vivendo?
Essa pergunta não pretende produzir condenação. Ela produz responsabilidade.
Enquanto toda culpa estiver no outro, toda mudança também dependerá do outro. Quando reconheço minha responsabilidade, recupero algo precioso: a possibilidade de mudar.
A Bíblia apresenta essa realidade através da linguagem da semeadura. Toda escolha é, de alguma maneira, uma semente. Algumas germinam rapidamente. Outras permanecem escondidas durante muito tempo.
Davi viu Bate Seba e tomou uma decisão. Depois tomou outra para esconder a primeira. Em seguida, outra. O problema de Davi não começou quando Natã entrou no palácio dizendo: “Tu és esse homem”. Começou muito antes, quando uma escolha aparentemente particular foi plantada no coração.
Sansão também não perdeu sua força no momento em que cortaram seus cabelos. Sua queda começou muito antes. Começou quando passou a brincar repetidamente com os limites que Deus havia estabelecido.
É assim conosco.
Muitas colheitas dolorosas começaram como pequenas sementes aparentemente inofensivas.
Jeremias chama isso de amargura. Existem escolhas que parecem doces no início e se tornam amargas no final. Parecem liberdade e terminam em escravidão. Parecem vantagem e terminam em perda.
Mas a Bíblia não termina no diagnóstico.
Em Malaquias, depois de confrontar um povo que havia abandonado princípios espirituais, Deus não diz: “Agora sofram as consequências.”
Ele diz:
“Voltem para mim, e eu voltarei para vocês.”Malaquias 3:7
Aqui encontramos o coração da graça.
O Deus que confronta é o mesmo Deus que chama de volta.
Malaquias aplica isso inclusive à vida financeira. O povo desejava a bênção de Deus, mas havia abandonado a fidelidade nos dízimos e nas ofertas. O problema não era simplesmente dinheiro. Era governo.
Quem ocupa o primeiro lugar?
Podemos chamar Jesus de Senhor, mas a palavra “Senhor” implica autoridade. Se Ele é Senhor, a pergunta inevitável é: quando minha vontade entra em conflito com a Palavra, quem decide?
Talvez seja exatamente aqui que algumas de nossas dores começam.
Queremos que Deus transforme a consequência, enquanto Deus deseja primeiro transformar a causa.
É por isso que Hebreus 12 apresenta a disciplina de Deus não como abandono, mas como manifestação do amor do Pai.
A correção dói, mas possui propósito.
O escritor aos Hebreus afirma que nenhuma disciplina parece agradável enquanto acontece, porém, posteriormente, produz “fruto de justiça e paz”.
Há uma expressão maravilhosa nisso: mais tarde.
Hoje talvez eu esteja sendo confrontado. Mais tarde verei o fruto.
Hoje preciso reconhecer um erro. Mais tarde experimentarei a paz produzida pela mudança.
Hoje preciso abandonar uma escolha. Mais tarde talvez agradeça a Deus por ter tido coragem de fazê-lo.
E aqui está a grande esperança do Evangelho: não posso voltar ao passado, mas posso mudar a decisão que estou tomando hoje.
Pedro não pôde apagar as três vezes em que negou Jesus. Mas encontrou o Cristo ressuscitado à margem do mar da Galileia e recebeu uma nova oportunidade: “Apascenta as minhas ovelhas.”
O erro permaneceu no passado. Pedro, porém, não permaneceu no erro.
Talvez essa seja a diferença entre uma queda e uma vida caída.
Uma decisão errada não precisa tornar-se um estilo de vida.
Você não pode trocar as sementes que plantou ontem, mas pode escolher o que plantará hoje.
Pode voltar a orar. Pode voltar à Palavra. Pode reconciliar-se. Pode reorganizar sua vida. Pode voltar à fidelidade. Pode pedir perdão. Pode abandonar aquilo que sabe que está destruindo você.
Judas encerra sua carta dizendo que devemos edificar-nos na fé, orar no Espírito Santo e permanecer no amor de Deus. E, depois de nos chamar à responsabilidade, termina apontando não para nossa capacidade, mas para o poder de Deus.
Ele é poderoso para nos guardar de cair e nos apresentar diante de Sua glória com alegria.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas:
“Estou sofrendo porque quero?”
Talvez a pergunta mais importante seja:
“Depois de descobrir o caminho de volta, por que continuaria caminhando na direção errada?”
Se algumas escolhas produziram lágrimas, novas escolhas podem produzir uma nova colheita.
O passado explica algumas das cicatrizes que carregamos, mas não precisa determinar o lugar onde terminaremos.
Deus ainda chama:
Volte.
E enquanto houver um Deus chamando você de volta, ainda existe uma história que pode ser reescrita.
Você não precisa voltar ao passado para mudar o futuro.
Precisa apenas permitir que Deus transforme as escolhas que você faz hoje.
Que Deus o abençoes poderosamente.
Ap. Ernani Lara
Alpha Church Londres
Igreja Brasileira em Londres



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