Benção ou maldição?
- Ap. Ernani Lara

- há 2 dias
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Benção ou maldição?
Há orações que fazemos durante anos. Pedimos uma porta aberta, uma casa, um emprego melhor, estabilidade financeira, crescimento da família, oportunidades, saúde, reconhecimento ou crescimento ministerial.
Então, um dia, aquilo que era oração torna-se realidade, mas a grande dúvida sempre será: Isto é uma bênção ou uma maldição?
As portas se abrem. A resposta chega. A situação melhora. O salário aumenta. A empresa cresce. A casa é comprada. O ministério avança.
E justamente nesse momento pode começar uma das provas mais silenciosas da vida espiritual, que é saber se estamos recebendo uma bênção ou uma maldição, por meio das provas que estaremos passando.
O texto básico da nossa meditação está em Deuteronômio 8 do verso 10 a 18.
A prova da prosperidade.
Estamos acostumados a pensar que a provação está relacionada à perda. Entretanto, a Bíblia mostra que tanto a falta quanto a abundância podem provar o coração humano.
Foi exatamente esse o alerta de Moisés ao povo de Israel.
Pelo deserto de Canaã, Israel passou quarenta anos. Ali, praticamente tudo lembrava ao povo que sua sobrevivência dependia de Deus.
O maná não estava armazenado em celeiros. A provisão vinha diariamente.
A água não dependia de um sistema construído por Israel. Deus providenciava.
As roupas foram preservadas durante a caminhada. Os pés foram sustentados durante os anos de peregrinação.
Moisés relembra:
“Nunca faltou maná para vocês comerem, nem água para beberem. Durante quarenta anos as roupas que vocês vestiam não ficaram gastas, e os seus pés não ficaram inchados.”Deuteronômio 8:3,4, NTLH
O deserto tinha muitas dificuldades, mas possuía uma característica espiritual extraordinária: todos os dias Israel precisava olhar para Deus.
Conforme as palavras de Moisés, Canaã seria diferente, foi descrito como uma terra com ribeiros, fontes, trigo, cevada, videiras, figueiras, romãs, oliveiras, mel e abundância.
E então declarava: “Quando, pois, tiveres comido e fores farto, louvarás ao Senhor, teu Deus, pela boa terra que te deu.”Deuteronômio 8:10, ARC
Mas imediatamente vem a advertência:
“Guarda-te que te não esqueças do Senhor, teu Deus.”Deuteronômio 8:11, ARC
Aqui encontramos algo surpreendente: O perigo não era somente no deserto, mas havia também perigos em Canaã.
No deserto, o perigo era perder a confiança.
Em Canaã, o perigo seria perder a gratidão.
Diante disso, pergunto, quando começamos a nos esquecer das bênçãos do Senhor nosso Deus?
A palavra hebraica traduzida por “esquecer” é שָׁכַח, shakhach.
Nesse contexto, esquecer Deus não significa simplesmente apagar da memória a informação de que Deus existe.
Israel não acordaria dizendo: “Quem é Deus? Nunca ouvimos falar dele.”
O esquecimento é muito mais sutil, é continuar sabendo quem Deus é, mas começar a viver como se já não precisasse tanto dele.
Esse perigo continua sendo muito atual.
Quantas pessoas oram intensamente por um emprego e, depois que conseguem, passam a ter cada vez menos tempo para Deus?
Quantas pediram que Deus abrisse uma porta e, depois que a porta se abriu, aquilo que receberam começou a ocupar o tempo que antes dedicavam ao Senhor?
Quantas pessoas, quando tinham pouco, agradeciam por tudo, mas depois que passaram a ter muito, começaram a considerar tudo normal?
Talvez o maior perigo espiritual não seja dizer:
“Eu não quero mais Deus.”
Talvez seja simplesmente começar a dizer:
“Depois eu oro.”
“Depois eu leio a Bíblia.”
“Depois eu vou ao culto.”
“Depois eu sirvo.”
“Depois eu contribuo.”
E Deus vai ficando cada vez mais para depois.
Não abandonamos necessariamente a fé. Apenas reorganizamos nossas prioridades até que o Abençoador fique atrás das bênçãos que recebemos.
Isso eu tenho visto regularmente em meu ministério missionário em Londres.
Portanto o problema não é possuir, mas sim desprezar quem nos abriu as portas.
A Bíblia não ensina que possuir bens seja pecado.
Abraão possuía rebanhos, prata e ouro, conforme Gênesis 13:2.
Jó era um homem de grande patrimônio, conforme Jó 1:3.
Davi reuniu enormes recursos para a construção do Templo, conforme 1 Crônicas 29.
O problema bíblico nunca foi simplesmente possuir.
O perigo começa quando aquilo que possuímos passa a possuir o nosso coração.
Foi exatamente isso que Moisés antecipou:
“E se multiplique a tua prata, e o teu ouro, e se multiplique tudo quanto tens, se eleve o teu coração, e te esqueças do Senhor, teu Deus.”Deuteronômio 8:13,14, ARC
Observe a sequência.
Primeiro, multiplicam-se os bens.
Depois, eleva-se o coração.
Finalmente, esquece-se de Deus.
A bênção entrou pelas mãos e, silenciosamente, chegou ao coração.
A palavra que ser houve é: “EU CONSEGUI”
Moisés continua:
“E digas no teu coração: A minha força e a fortaleza de meu braço me adquiriram este poder.”Deuteronômio 8:17, ARC
Talvez esta seja uma das tentações mais perigosas do sucesso: substituir o “Deus me ajudou” pelo “eu consegui”.
Eu trabalhei.
Eu estudei.
Eu investi.
Eu construí.
Eu tive competência.
Eu tomei as decisões certas.
Tudo isso pode ser verdade.
Mas existe uma pergunta anterior a todas essas afirmações.
Quem lhe deu capacidade para fazer tudo isso?
Quem lhe deu inteligência?
Quem preservou sua saúde?
Quem lhe deu oportunidades?
Quem colocou pessoas importantes em seu caminho?
Quem preservou sua vida enquanto você construía aquilo que hoje possui?
Por isso Moisés completa:
“Antes, te lembrarás do Senhor, teu Deus, que ele é o que te dá força para adquirires poder.”Deuteronômio 8:18, ARC
Deus não está anulando o trabalho humano.
Ele não está dizendo: “Você não fez nada.”
Deus está ensinando: “Nunca esqueça de onde veio a capacidade para fazer.”
Por isso, podemos definir gratidão assim:
Gratidão é reconhecer a graça de Deus por trás daquilo que nossas mãos conseguiram realizar.
Temos a história do rei Uzias, registrada em 2 Crônicas 26, é um exemplo impressionante.
Ele começou muito bem.
“Porque deu-se a buscar a Deus nos dias de Zacarias […] e, nos dias em que buscou o Senhor, Deus o fez prosperar.”2 Crônicas 26:5, ARC
Uzias venceu inimigos. Construiu cidades. Fortificou Jerusalém. Desenvolveu a agricultura. Organizou o exército. Tornou-se poderoso.
Sua fama atravessou fronteiras.
Mas então aconteceu algo terrível:
“Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper.”2 Crônicas 26:16, ARC
Que contradição!
Quando precisava de Deus, buscava a Deus.
Quando se tornou forte, começou a confiar excessivamente em si mesmo.
Uzias venceu inimigos externos, mas não conseguiu vencer o orgulho dentro do próprio coração.
Aqui encontramos uma verdade desconfortável:
Há pessoas que sabem administrar a dificuldade, mas não sabem administrar o sucesso.
Quando precisam, são humildes.
Quando prosperam, tornam-se inacessíveis.
Quando estão começando, aceitam conselhos.
Quando alcançam posições, já não querem ouvir ninguém.
Quando precisam de oportunidades, valorizam pessoas.
Quando conquistam influência, esquecem quem caminhou ao lado delas.
Por isso, precisamos ter cuidado.
Uma bênção mal administrada pode conseguir aquilo que a luta nunca conseguiu: afastar-nos de Deus.
Podemos olhar também para a história do homem que tinha celeiros, mas não tinha tempo.
Jesus nos contou uma história semelhante em Lucas 12:16 a 21.
Um homem teve uma colheita extraordinária.
Não havia nada errado com a colheita. Também não havia nada errado em construir celeiros maiores.
O problema aparece quando ouvimos sua conversa:
“Derribarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens.”Lucas 12:18, ARC
Depois ele diz:
“Alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga.”Lucas 12:19, ARC
Observe quantas vezes o pensamento está concentrado nele mesmo.
Meus frutos.
Meus celeiros.
Meus bens.
Minha alma.
Existe alguém completamente ausente de seus planos: Deus.
Então vem a sentença:
“Louco, esta noite te pedirão a tua alma, e o que tens preparado para quem será?”Lucas 12:20, ARC
Ele possuía planejamento para muitos anos, mas não tinha garantia daquela noite.
Preparou celeiros para o futuro, mas não preparou a alma para a eternidade.
Jesus conclui:
“Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus.”Lucas 12:21, ARC
O problema não estava nos celeiros.
Estava no coração.
POSSUIR SEM SER POSSUÍDO
Então, como deve viver alguém que Deus prosperou?
Paulo responde:
“Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos.”1 Timóteo 6:17, ARC
Depois acrescenta:
“Que façam o bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente e sejam comunicáveis.”1 Timóteo 6:18, ARC
Aqui encontramos o equilíbrio.
Deus pode colocar recursos em nossas mãos sem permitir que esses recursos ocupem nosso coração.
Eu posso possuir sem ser possuído.
Posso prosperar e continuar humilde.
Posso crescer e continuar dependente de Deus.
Posso ganhar mais e tornar-me ainda mais generoso.
Posso alcançar posições maiores e continuar servindo.
É nesse contexto que também compreendemos dízimos, ofertas e contribuições para a obra de Deus.
Não contribuímos para comprar a bênção de Deus.
Contribuímos porque reconhecemos de onde vieram as bênçãos que já estão em nossas mãos.
A oferta não compra Deus.
A oferta revela gratidão.
UMA PERGUNTA QUE PRECISAMOS TER CORAGEM DE RESPONDER
Você era mais próximo de Deus quando tinha menos?
Talvez seja melhor não responder imediatamente.
Pense.
Quando precisava daquele milagre, você orava mais?
Quando precisava daquela oportunidade, buscava mais?
Quando tudo parecia impossível, jejuava mais?
Quando precisava desesperadamente de Deus, frequentava mais os cultos?
E agora?
Agora que algumas orações foram respondidas, sua busca aumentou ou diminuiu?
Talvez uma das maiores provas da fidelidade não seja permanecer com Deus enquanto precisamos desesperadamente de alguma coisa.
Talvez seja permanecer igualmente apaixonado por Deus depois de receber aquilo que pedimos.
O deserto testa nossa confiança.
Canaã testa nossa gratidão.
QUANTO MAIS RECEBO, MAIS POSSO SERVIR
Jesus nos apresenta o modelo perfeito.
Paulo escreve:
“Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.”Filipenses 2:7, ARC
O verbo grego utilizado é ἐκένωσεν, ekénōsen, relacionado à ideia de esvaziar-se. No contexto de Filipenses, não significa que Cristo deixou de ser Deus. Paulo está descrevendo sua humilhação voluntária, assumindo a condição de servo.
Jesus possuía toda autoridade e, ainda assim, serviu.
Tinha poder e permaneceu humilde.
Recebeu um nome acima de todo nome, mas antes lavou pés.
Isso muda nossa maneira de medir prosperidade.
Talvez a pergunta não deva ser somente:
“Quanto consegui?”
Mas também:
“Quantas pessoas estão sendo abençoadas porque Deus colocou alguma coisa em minhas mãos?”
Quanto mais Deus me dá, maior se torna minha responsabilidade.
Se minha renda aumenta, minha generosidade pode aumentar.
Se minha influência cresce, minha capacidade de ajudar pessoas também cresce.
Se meu ministério cresce, minha responsabilidade espiritual cresce.
Se Deus coloca mais em minhas mãos, tenho mais condições de servir.
QUANDO A ORAÇÃO ESTÁ DENTRO DA NOSSA CASA
Talvez você esteja lendo este texto sentado dentro de uma resposta de oração.
A casa onde você está talvez tenha sido motivo de oração.
O trabalho do qual você reclama hoje talvez tenha sido o emprego que um dia pediu chorando.
A família que está ao seu redor talvez seja resposta de antigas orações.
A posição que hoje parece comum talvez tenha sido um sonho distante anos atrás.
Talvez estejamos vivendo respostas de orações das quais já nem nos lembramos.
Por isso, de vez em quando, precisamos olhar ao redor e simplesmente dizer:
“Obrigado, Senhor.”
Não deixe a bênção apagar a memória do deserto.
Não permita que aquilo que Deus colocou em suas mãos ocupe o lugar de Deus em seu coração.
Se sua casa crescer, que seu altar cresça também.
Se sua renda aumentar, que sua generosidade aumente.
Se sua influência aumentar, que sua humildade aumente.
Se seu ministério crescer, que sua dependência do Espírito Santo cresça ainda mais.
E, se um dia muitas pessoas conhecerem o seu nome, nunca se esqueça de quem você era quando somente Deus conhecia suas lágrimas, suas orações e seus sonhos.
A BÊNÇÃO MAIOR
Há pessoas atravessando o deserto e pedindo:
“Senhor, leva-me para Canaã.”
Que Deus as leve.
Mas talvez precisemos acrescentar outra oração:
“Senhor, quando eu chegar a Canaã, não permita que Canaã me faça esquecer de Ti.”
Porque o grande perigo não é possuir uma casa bonita. É possuir uma casa bonita e deixar de ter um altar.
O perigo não é ganhar mais. É ganhar mais e agradecer menos.
O perigo não é crescer. É crescer por fora e diminuir espiritualmente.
O perigo não é tornar-se conhecido. É ser conhecido por todos e deixar de conhecer intimamente aquele que o levantou.
A maior bênção não é simplesmente sair do deserto.
A maior bênção não é possuir Canaã.
A maior bênção é chegar a Canaã e continuar amando, buscando e adorando o mesmo Deus que caminhou conosco pelo deserto.
Por isso, guarde estas palavras:
O deserto testa minha confiança.A prosperidade testa minha gratidão.
E talvez a verdadeira prosperidade não seja conseguir tudo aquilo que desejamos.
Talvez seja poder receber muito das mãos de Deus sem permitir que nenhuma dessas coisas substitua a presença de Deus.
Quando olhar para aquilo que conquistou, faça uma oração:
“Senhor, obrigado pelo que colocaste em minhas mãos. Agora ensina-me a usar tudo isso para glorificar o teu nome.”
Porque a bênção somente se torna um perigo quando começamos a amar mais aquilo que Deus nos deu do que o próprio Deus que nos deu.
Que tenhamos casas, mas também altares.
Que tenhamos recursos, mas também generosidade.
Que tenhamos influência, mas também humildade.
Que tenhamos sucesso, mas continuemos de joelhos.
E que, depois de recebermos muito das mãos de Deus, nosso coração ainda possa dizer:
“Senhor, tudo o que tenho veio das tuas mãos, mas nada do que recebi é mais precioso para mim do que a tua presença.”
“Antes, te lembrarás do Senhor, teu Deus, que ele é o que te dá força para adquirires poder.”Deuteronômio 8:18, ARC
Ap. Ernani Lara
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